Mostra em Paris eleva tatuagem como uma expressão da arte

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Mostra em Paris eleva tatuagem como uma expressão da arte

PARIS – Decorar o corpo humano com motivos os mais diversos já foi – e continua a ser – expressão de misticismo, de religiosidade, de rebeldia e de marginalidade por parte de tribos ancestrais. Hoje, mais do que um fenômeno popular “permanente e globalizado”, é uma expressão artística completa, tão relevante como a pintura. Esta é a tese defendida pela exposição Tatuadores, Tatuados, em cartaz no museu de artes primitivas de Quai Branly, em Paris.

A mostra, que segue até outubro de 2015, explica como ícones pop do esporte e da moda, como David Beckham, que hoje exibem corpos tatuados em  publicidades de TV, são herdeiros de uma tradição ancestral praticada por membros de tribos da Ásia e da África profunda ou de degredados e marginais da Europa e das Américas.

A exposição foi aberta em maio e se tornou um sucesso de público em Paris, onde as filas de espera para a entrada se estendem por até uma hora. Parte da explicação do interesse é o novo status social da tatuagem. Antes limitada a tribos selvagens e a círculos marginais, a decoração corporal se transformou em fenômeno pop global nas últimas duas décadas.

Em seu editorial de apresentação da mostra, Stéphane Martin, presidente do Museu du Quai Branly, lembrou que, na França, 20% dos jovens entre 25 e 34 anos exibem uma tatuagem no corpo, índice com certeza maior em países como EUA ou Brasil.

O objetivo da exposição é puxar o fio condutor que une essa explosão da tatuagem como fenômeno social no século 21 com seu passado antropológico radical e marginal. O ponto de partida dessa navegação pela história da tatuagem é aprender que o substantivo deriva de “tatau”, uma expressão polinésia de cunho filosófico que remete ao “que há de mais profundo no homem”. Pouco importa que não seja possível precisar em que data a prática de decorar o corpo para sempre teve início. Mais importante na mostra é diagnosticar como ocorreu sua globalização avassaladora no século 21.

Segundo os curadores, a expansão da tatuagem tem origem remota, o século 15, e se deve ao aprimoramento do transporte marítimo e à intensificação das trocas comerciais e humanas, que pôs em contato culturas da Europa com a Ásia e as Américas. A aceleração como fenômeno popular, porém, aconteceu entre o século 19 e o 21, período em que a tatuagem deixou de ser uma prática das tribos selvagens asiáticas, africanas e americanas, e de degredados europeus, para se tornar forma de expressão de tribos urbanas contemporâneas.

Essas conclusões são expressas por meio de mais de 300 desenhos, fotografias, trechos reais de pele humana tatuada e membros artificiais tatuados que explicam a evolução antropológica, social, cultural, técnica e estética da prática. Entre as peças estão retratos como o da Mulher Argelina, do fotógrafo Marc Garanger, da Última Mulher Kalinga Tatuada, de Jake Verzosa, e Retrato de Maras, de Isabel Muñoz. Ao destacar a diversidade geográfica do fenômeno, a mostra lança luzes sobre a forma contraditória com que Oriente e Ocidente observavam o corpo tatuado, que variava de marca de prestígio e distinção social na Oceania a estigma na Europa católica medieval.

O percurso explica então sua aceitação paulatina pela cultura contemporânea, do status de marginalidade, passando pela subcultura ultra-alternativa dos anos 1960, 70 e 80 até o ponto atual, em que a tatuagem tornou-se linguagem de moda, de design e de publicidade.

“A tatuagem é um fenômeno social contemporâneo, mas a exposição reforça suas origens marginais e tribais”, ressaltou ao Estado Anne, membro do duo Anne&Julien, curadores da exposição e fundadores da revista de arte Hey!. “Hoje a tatuagem é fruto de uma explosão que começou nos séculos 19 e 20. Ela não é mais restrita às zonas tradicionais da Ásia ou da África e, sim, um fenômeno mundial ligado à globalização, que lhe dá visibilidade.”

A mostra do Quai Branly faz parte de uma tendência internacional de reconhecimento da tatuagem como expressão de arte. Desde o início do século, grandes museus mundiais já realizaram exposições sobre o tema. Um dos pontos fortes da mostra promovida pela instituição parisiense é o fato de reunir material inédito, que resulta em uma exposição dentro da exposição. “Nós demonstramos que a tatuagem é antes de mais nada um território artístico e faz parte de nosso tempo”, diz Anne.

Convidados pelo Quai Branly e pelos curadores da mostra, 30 dos mais destacados tatuadores do mundo realizaram trabalhos específicos sobre pele artificial. Com base nas obras do francês Tintin, do japonês Horiyoshi III, do suíço Filip Leu, do inglês Xed LeHead ou do canadense Yan Black, a mostra reúne um panorama do que de melhor se tem feito em termos de tatuagem artística no mundo – sem esquecer como ela preserva seu caráter antropológico, social, místico ou religioso.

Fonte: Estadão

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